Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Fluminense, o título e o futebol de resultado

O Fluminense, o título e o futebol de resultado


Por Alisson Matos


A vitória sobre o Bahia, ontem, em Pituaçu, foi o símbolo máximo de um Fluminense efetivo, mas que não encanta.  Uma equipe dotada de raros talentos individuais, porém que passa longe do essencial para um time, vítima da já exaustiva ideia de que futebol limita-se ao resultado, jogando para escanteio o já quase extinto espetáculo. Os 2 a 0 saíram de lances isolados, como virou regra nos duelos do tricolor carioca neste Brasileiro.

Nem de longe a intenção é menosprezar o que o escrete de Fred e companhia fez até aqui. Líder isolado, com vantagem de nove pontos para o Atlético MG, segundo colocado, seria até natural que, ao futebol do Flu, só aparecem elogios. Mas, não, o time poderia alçar voos maiores, rumo à conquista que tinha tudo para se tornar eterna. 

Conhecidas, as convicções de Abel Braga prezam pelo futebol defensivo, em que o não tomar gol é mais importante do que fazê-lo, mergulhado na tal praga pragmática que assola, há tempos, o ludopédio tupiniquim. 

Tão cristalino quanto o tricolor das Laranjeiras representar algo que os amantes do velho esporte bretão  já não suportam é o fato de que o título se aproxima. E tão difícil como imaginar a equipe de Cuca, de futebol mais vistoso, e o Grêmio de Luxa tomarem o que será ao Fluminense de direito é pensar que, a partir de agora, os cariocas mudarão o estilo que tanto deu certo.

É o futebol brasileiro que caminha rumo à vala comum da mediocridade, num país em que o jogar para frente virou sinônimo de derrotas, além de produzir técnicos e times que vão de encontro à essência do que um dia chamamos de paixão nacional. Se futebol fosse só isso, certamente não gostaríamos tanto. 




quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Efeito Patrícia


Foto: Alexandre Vidal/FlaImagem


Por Alisson Matos

A normalidade se estabelecia pelos lados rubro-negros da Guanabara. Eram duas vitórias nos últimos duelos e o padrão de jogo, tão desejado nos idos tempos de Joel Santana, enfim, alcançado. Dorival Júnior assumiu o time e a paz com os bons resultados parecia selada.

Parecia.

Até que a manda-chuva flamenguista retornou de Londres e passou a assombrar até o mais otimista torcedor do clube, que insistia em acreditar na recuperação. Não bastavam a desordem criada e a incompetência explicitada, Patrícia Amorim trouxe com ela da Europa o temido azar.

Ou como explicar a expulsão de Íbson em um lance bobo, num jogo absolutamente equilibrado? Ou ainda buscar palavras para o impedimento de Barcos no momento do gol? Quem sabe tentar saber o que houve com Vágner Love, que marcou os últimos tentos da equipe no campeonato, mas que nada fez no jogo de hoje.

Só Patrícia e o acaso para elucidarem, pois enquanto César Cielo via a medalha de ouro escapar, Diego e Danielle Hypólito eram eliminados precocemente da Olimpíada e a presidenta ostentava a má sorte em terras bretãs, o Flamengo subia na tabela e notava os problemas exaurindo-se.

A boa fase durou pouco tempo e o mau futebol voltou a ser apresentado. “Culpa da Patrícia”, dirá o apaixonado preocupado com o restante da competição. Ah, se os Jogos de Londres fossem eternos...


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Zico, meu pai e o azar


Foto: Blog do Wanderley Nogueira

Por Alisson Matos 


Corria o ano de 1998.

E eu via, com os olhos de uma criança de dez anos, a Copa do Mundo da França.

E me encantava, afinal, era o primeiro mundial acompanhado da inseparável consciência de que já entendia e podia, por assim dizer, discutir com os mais velhos.

Lembro-me que todo jogo da seleção brasileira era uma festa.

Na minha casa, família e amigos se reuniam a cada partida e mantinham viva a esperança do sonhado penta.

Escrete marcante de Taffarel, Cafú, Aldair, Júnior Baiano, Roberto Carlos, Dunga, César Sampaio, Leonardo, Rivaldo, Ronaldo e Bebeto. Sem Romário, cortado dias antes do início da competição, fomos de Zico que auxiliava o técnico Zagallo.

O galinho era um capítulo à parte. Residência de flamenguistas, as atenções eram voltadas a ele, eterno ídolo que é.

No entanto, o ex-camisa 10 rubro negro carregava o peso de ter perdido em 1978, 1982 e 1986 as chances de vencer uma Copa do Mundo.

O mito da falta de sorte era sempre lembrado.

“O Zico é azarado. Jamais foi campeão mundial com a seleção”, proferia meu pai entre um jogo e outro.

Mas era só a bola começar a rolar que o desesperançoso começava a acreditar que, desta vez, seria diferente.

O time de Zagallo fez uma boa primeira fase.

O que era esperado.

Venceu a Escócia, o Marrocos e perdeu, já classificado, para a Noruega.

Nas oitavas, o Chile como adversário.

E os 4x1 fizeram o fanático alertar:

“Sabia que passaríamos, mas o Zico é azarado.”

O desejo era sobreposto à crença.

Na fase seguinte, vieram os dinamarqueses, o 3x2 suado e a expectativa, que só aumentava.

Na verdade, meu velho pouco se importava com a seleção e com a festa.

O que ele queria, mesmo, era, enfim, ver seu maior ídolo no esporte campeão da competição.

A Holanda veio na semifinal e a vitória nos pênaltis o fez lembrar da derrota, no México, em 86, para Platini e companhia.

Passada a laranja mecânica, a convicção de que o azar passara longe, agora, era evidenciada a cada discussão.

Então, chegou a final. E, com ela, o dilema do desmaio do camisa 9.

O que fora certeza e virou expectativa tornou-se, mais uma vez, tragédia e pesadelo.

3x0 para a mesma França, que via nascer um ídolo, um craque, um gênio.

Na TV, a imagem de Zidane, de Petit, Barthez e do presidente Jacques Chirac.

Na sala, meu pai, triste e agarrado às suas convicções, reverberava:

“Não disse? O Zico não nasceu para vencer uma Copa.”

Passaram-se alguns anos, mais precisamente oito, e, com a esperança revigorada, lá estava o velho a torcer pelo galinho, que no Mundial da Alemanha treinava os japoneses.

Ao fim da Copa de 2006, título para a seleção italiana e nada do eterno camisa 10 levantar a taça.

O sonho ficara para as próximas Copas. 

Quem sabe um dia se realize.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O sabor da conquista

Foto: LOCOG


Por Alisson Matos

Foram quatro anos de preparação que seriam decididos ali, nos próximos minutos, no campo de batalha que tanto sonhara em estar. O esforço feito, quase impossível de dimensionar, a um passo de tornar-se glória, como acontece em narrativas que fazem de ídolos heróis e atletas mitos. 

Nas costas, o peso de uma nação que carrega nele a esperança. A poucos metros dali, o posto desejado é deslumbrado com um olhar sorrateiro, desconfiado, de quem não alimenta muita expectativa para um possível êxito. Sábios são os que vão à disputa sem exagerado entusiasmo, mas com a alma dos valentes. Estes, quase sempre, com a obstinação que vem de berço, alcançam o topo.

O ambiente exalava pressão e os últimos arranjos separavam-no da tão almejada conquista. Foi dado o início e, em sua mente, passavam as consequências do revés e, também, da vitória. Na competição, uma perigosa linha tênue costuma separar o céu do inferno. Então, resolveu converter a apreensão em garra e o medo em luta. Lembrou-se das dificuldades, da falta de patrocínio, da escassez de apoio e do que significava tudo aquilo.

Ouvia, ao fundo, incentivos que vinham por meio de sussurros quase silenciados pela imensidão do ambiente. Chegou a pensar que era o seu subconsciente alarmando que havia quem acreditasse no triunfo. Agarrou-se no objetivo e começou a crer na realização de um sonho. As lembranças da infância, do fim dos contos de fadas, da descoberta que o Papai Noel e o Coelho da Páscoa não existiam vieram, novamente, à tona.

Deixou as reminiscências para trás e buscou concentrar-se. A tarefa deixara de ser fácil desde que deixou o seu país, tamanha a responsabilidade que era representá-lo. Queria voltar com o nome cravado na eternidade, mas conhecia os seus limites. A reta final aproximava-se, os músculos doíam, o cansaço era evidenciado e as lágrimas estavam prontas para ganhar o mundo. 

Dali até o fim da disputa, recorda-se, somente, da contemplação. Havia chegado a hora. A sua hora.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Menino eu fui

Reprodução

Por Alisson Matos


O sol reinava em absoluto.

Pés descalços e polidos, com o tempo, pelo asfalto.

Nas faces, expressões ingênuas,

Nas mentes, sonhos de aventura.

Para a metade, o uniforme era a ausência da camiseta.Para os outros, nem a necessidade de uniformes havia.

A arquibancada, na imaginação, deixava qualquer grande estádio com inveja.

A torcida?

Toda a vizinhança, presente na rua e ausente no espetáculo.

A bola rolou…

Se iniciava uma arte em que pés, pernas e corpos se cruzavam.

A pelota, límpida, dava o tom.

Ora tratada com maestria,

Outrora, de tão maltratada, procurava se vingar acertando vidraças alheias

O objetivo da gurizada era só um, fazer o gol.

Tarefa nada fácil nas traves que, quando chiques, eram pomposas havaianas surradas pelo passado.

Entre os garotos, alguns se destacavam.

Sussurros eram proferidos, “esse teria futuro”.

O incentivo vinha acompanhado do fim da ilusão.

Preferiam conviver com o mito da incerteza.

O 0×0 persistia

E a angústia aumentava

Vencer, ali, seria como ser campeão do mundo.

A partida era disputada com a seriedade dos utópicos.

Lá pelas tantas, aos 45 minutos do segundo tempo, que nas ruas se caracterizam pelos gritos de “venha tomar banho, moleque”, saiu o sofrido, lamentado e inesquecível GOL.

O autor comemorou como se estivesse dando a volta olímpica no Maracanã.

Correu para os torcedores que estavam mais preocupados com o almoço de logo mais.

O dono da bola se ausentou.

Com ele, foi a eterna parceira e a certeza do próximo adversário: o chuveiro.

Para os demais, ficou a sensação de que a epopéia (com acento mesmo, assim como nos meus tempos de criança) não acabava ali,

Pois, para eles, o ludopédio não tem início nem fim.

É, somente, uma das várias maneiras de sonhar.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O sonho, o apito e o domingo

Reprodução


Por Alisson Matos


O relógio badala seis vezes
O domingo, como os demais, começara cedo
O uniforme, a postos, está pronto, desde sempre, para ser usado.
A bola, ao lado da cama, fora colocada minuciosamente no dia anterior.
Camiseta, calção, caneleira e a chuteira deixam de ser instrumentos de caracterização e passam a compor uma liturgia quase divina.
O jejum, pelo esforço físico que está por vir, será mantido até o fim do duelo.
O alongamento e o bocejo vêm acompanhados num mesmo diapasão.
O aquecimento é feito logo ali, no seu vestiário particular: o apertado espaço entre a sala e a cozinha.
Já vestido e com a pelota debaixo do braço, um beijo na testa da esposa, que ainda dorme, anuncia o"até logo”.
No caminho, a imaginação vai longe.
Do campinho de terra batida aos maiores templos do ludopédio mundial.
Lembra dos craques, dos gênios e dos ídolos.
Imagina jogadas, gols e comemorações.
Quando chega ao lugar reservado ao seu espetáculo, a saudação é muito bem vinda
É verdade que muito mais pela pelota do que por sua presença.
Dono da bola é também dono do jogo.
As equipes são, com muito esmero, selecionadas.
E, para seu azar, não faltara ninguém.
Sequer vaga no gol, posição mais do que aviltada no futebol de várzea, tinha.
Restou-lhe, somente, o apito.
No máximo, ouvirá algumas palavras de baixo calão dirigidas a ele e a sua genitora.
O sonho de marcar um golaço, de novo, fora adiado.
Quem sabe, se tiver sorte, para o domingo que vem.