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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Enxergar é preciso



Ale Cabral


Por Alisson Matos

Aqui já escrevi que o Corinthians jamais foi tão favorito a conquistar a Libertadores como agora. O tal equilíbrio, dito e repetido inúmeras vezes por Tite, parecia ter sido alcançado. Fruto, também, das decepções acumuladas em anos anteriores, a estabilidade veio acompanhada do quase inseparável pragmatismo do treinador.

O time não encanta, faz poucos gols e tem como virtude a marcação. A máxima de que primeiro é preciso arrumar lá atrás para depois pensar na frente ganhou corpo no Parque São Jorge. Resultado do dito futebol “moderno”. Foi assim que o time conquistou o Campeonato Brasileiro. É assim que a equipe joga o torneio intercontinental. 

Nessa vida mais do que centenária corintiana, a tão almejada taça é a conquista que falta. O clube quer, a torcida pede e jogadores e comissão técnica sabem da responsabilidade. A cautela adotada pelo comandante gaúcho se deve, além do seu perfil, ao desejo de extirpar a afobação, inimiga responsável por inesquecíveis tragédias. 

Na partida de ontem, contra o Emelec, a tranquilidade que havia se tornado comum foi jogada para escanteio na expulsão de Jorge Henrique e, após o duelo, nas declarações de Mário Gobbi. O juiz foi escolhido a vítima da vez, como se o clube não soubesse que na Libertadores é assim há tempos. Chega a beirar a selvageria.

O equilíbrio emocional corintiano parece ter sido abalado. No entanto, nada que deva colocar em risco a classificação, já que o adversário é fraco. O que não pode é dirigente agir como torcedor, atirando para todos os lados e acusando a Conmebol de tudo. O experiente cartolão sabe como funciona, só não quer enxergar. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Quando a mediocridade vira regra

Reprodução


Por Alisson Matos


Há quem diga que o futebol imita a vida, o que não deixa de ser uma verdade. Tanto que o fascinante esporte comete certos pecados. Injustiças até. Os deuses que dele cuidam parecem ser reles mortais, que erram e acertam como qualquer ser humano.

As provas estão aí, nos dias dos jogos, em partidas memoráveis e em outras em que esquecê-las se torna martírio. Imaginar que a Seleção Brasileira de 1982, comandada por Telê Santana, fora eliminada pelo mediano escrete italiano chega a ser uma afronta. E saber que os selecionados por Parreira, em 1994, exceção a Romário e mais alguns, foram campeões é de causar arrepios.

E a partir daí o resultado ganhou a importância que antes era atribuída ao espetáculo. Pois se o Barcelona vence e convence a todos com um mínimo de raciocínio, no futebol brasileiro, hoje, os destaques são treinadores em que a burocracia diz por si só. Vide Tite, Abel Braga, Felipão e Muricy Ramalho.

Por aqui, no período de antanho, cor, ginga e molejo foram incluídos no esporte mais apaixonante do planeta. Nos dias atuais, pregam o retrocesso. E maus exemplos não faltam. 

Temos um campeão nacional de causar pena, que prefere vencer pelo placar mínimo e sofrer a dar espetáculo e encantar. O estilo de Neymar e companhia exige uma maneira de jogar mais ofensiva, algo que parece inconcebível ao cérebro do técnico santista. Isso sem falar no Fluminense de Abelão, que mesmo com jogadores extraordinários, volta e meia é escalado com volantes em demasia.

O futebol brasileiro chegou ao ponto em que a preocupação em não perder superou a vontade de ganhar. O que só a falta de neurônios explica. Porque, se perguntados, alguns treinadores usarão argumentos táticos que nem eles mesmos entendem e justificarão a cautela com resultados, afinal, enquanto Fluminense e Corinthians vão bem nos estaduais e lideram seus grupos na Libertadores, o Santos é o último campeão dela e faz razoável campanha na competição.

O que, para os admiradores do futebol de resultados, é um bálsamo, como escreveu um mito, satisfeitos em sua ignorância, o pior tipo de burro que existe, aquele feliz, o que é uma praga quase invencível.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O futebol, a mesmice e o inexplicável

Montagem/ Reprodução


Por Alisson Matos

Pensar o futebol sem os clichês entre o céu e o inferno, a glória e a derrota e o herói e o vilão é tarefa quase impossível nos dias hodiernos. Faz parte do esporte o tal antagonismo, a superação e a necessidade de incorporar atributos de tragédias e superações como quem relata a trajetória do herói mitológico que desce ao báratro e volta para refazer sua própria história.

O esporte mais praticado no mundo é, na verdade, uma grande repetição. Algo cíclico, que no Brasil ganha um viés preocupante. Os exemplos ganharam os holofotes nos últimos dias.

A renúncia do Ricardo Teixeira, desde 1989 no comando da CBF, por exemplo, representa muito mais do que a queda de um ditador. Significa a manutenção da esperança que, se em outros lugares, é a última a morrer, por aqui quase virou múmia pronta a ser sepultada.

Outra notícia curiosa fora a saída iminente de Adriano do Corinthians. Um alto investimento, de retorno questionável, aliado ao comportamento anti-profissional, obrigou o clube a optar pela lógica, deixá-lo livre para procurar outro ambiente.

E o futebol brasileiro segue seu rumo, sem direção alguma, pois na CBF, José Marín, que o passado diz por si só, é o substituto do genro de João Havelange. E se o clube detentor da segunda maior torcida do país fechou as portas ao imperador, o Flamengo fez questão de abrir, oferecendo sua estrutura para a recuperação do jogador. Nada mais conveniente para aqueles que lutam em prol da mesmice, do mais do mesmo.

Tão evidente quanto a reformulação necessária na Confederação Brasileira de Futebol – e aqui não vão receitas de sucesso, nem regras que devem ser seguidas tão óbvias que são – é o reconhecimento de que o problema do Adriano extrapola as quatro linhas, já que se tornou caso de saúde pública. E nem cabe a nós qualquer conclusão, pois o vício não requer julgamento.

O que precisamos é de uma nova mentalidade, voltada à modernidade e sob a égide dos dias atuais. É inconcebível e incompreensível ainda não termos entrado nessa nova era que já está em pleno curso. Algo que seria até natural, mas que por aqui se torna inviável.

De fato, não dá pra entender o Brasil e o seu futebol, um lugar em que mudança significa manutenção. Buscar esclarecimentos é garimpar no seco. E tudo continuará como está, alegria de poucos e passividade de muitos.

Compreender é enlouquecer.

Como escreveu alguém, certa vez, talvez nem Freud explique o país da gente bronzeada.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Vasco na final. E o Flamengo, crônico, cômico ou cônico?



Por Alisson Matos



Quando Deivid perdeu o gol mais feito nos últimos anos do futebol mundial, os 18 mil torcedores presentes no Engenhão já tinham visto o Flamengo abrir o placar, com gol de Vágner Love, e o Vasco equilibrar as coisas até chegar ao empate com Alecsandro.

Até aí, o que parecia ser dia de Flamengo, com Airton e Leonardo Moura, enfim, jogando bem, já havia passado pelo reino do equilíbrio até, por fim, cair nos pés do reizinho da Colina, Juninho Pernambucano, que fazia partida memorável.

O clássico era daqueles que dava gosto assistir, lá e cá.

Era o Flamengo correndo atrás do seu sonho, amenizar o conturbado ambiente, e o Vasco fugindo do maior pesadelo, mais uma derrota em partida decisiva para o maior rival.

Aos 33, o goleiro Felipe, que falhou no gol cruz-maltino, fez milagre. No lance seguinte, já no minuto 34, Fernando Prass não deixou por menos em chute de Deivid.

O jogo era movimentado, emocionante, nervoso e lembrava os áureos tempos.

Com o Vasco já superior, o primeiro tempo chegou ao fim para alívio de Joel, do, mais uma vez, apático Ronaldinho Gaúcho e companhia.

No início da segunda etapa, o treinador flamenguista resolveu sacar Deivid, que, como disse o gênio, segue com seu problema crônico, ou seria cômico, quem sabe cônico, de perder gols.

Botinelli entrou e nada mudou, pois o Vasco seguia superior.

Felipe entrou e Juninho saiu.

Léo Moura sofreu pênalti e o juiz não viu.

O jogo já mantinha o mesmo diapasão até que, aos 32, Fágner cabeceou, Felipe, de novo, soltou e Diego Souza, até então discreto no duelo, virou.

Daí, foi jogo de ataque contra defesa.

O rubro-negro pressionava e Dedé e sua trupe defendiam.

Até que o juiz encerrou.

O Vasco, que não vence uma Taça Guanabara desde 2003, chega na final.

Já o Flamengo, que jamais havia perdido um clássico no Engenhão, fica pelo meio do caminho.

Em tempo: Enquanto no Rio, tivemos um clássico de parar o carnaval ou, quem sabe, alegrar a quarta-feira de cinzas, em São Paulo ocorreu um clássico que já foi mais clássico. Nele, o Corinthians venceu a Lusa por 2x0. E foi só.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Reflexões sobre futebol, inveja e gigantes



Por Alisson Matos


A dupla Flamengo e Corinthians entrou em campo ontem para enfrentar, respectivamente, o Lanus, na Argentina, e o Deportivo Táchira, na Venezuela.


Ambos faziam suas estreias na cobiçada fase de grupos da Taça Libertadores, torneio capaz de despertar sentimentos antagônicos em qualquer torcedor.


Mais cedo, o Santos de Neymar já havia perdido para o The Strongest na altitude boliviana sem muita repercussão.


Na semana passada, foram Fluminense e Vasco que, sem despertar mais do que a atenção dos seus próprios torcedores, iniciaram a hercúlea caminhada rumo ao desejado título.


Isso sem falar no Internacional que venceu na semana passada para a alegria de sua legião e tristeza – aqui talvez uma exceção – dos rivais gremistas.


Mas falemos dos times das massas, do povo, capazes de serem destaques quando estão em campo ou não, pois não é segredo para ninguém que os apaixonados pelo Santos, Palmeiras e São Paulo não esperam, somente, o sucesso de suas equipes, eles querem, também, o fracasso do maior rival. Situação semelhante ocorre na Guanabara, onde vascaínos, botafoguenses e tricolores se unem para secar o Flamengo.


E a prova da ira, da rivalidade e inveja é tamanha que se você perguntar a qualquer santista, palmeirense ou são paulinho qual é o maior rival desses escretes a resposta será unânime. No Rio de Janeiro, o time de maior torcida do país será, também, o mais odiado.


É o preço que se paga pela grandeza.


O Corinthians quando se sagra campeão de algum torneio é capaz de festejar com a própria fiel. O Flamengo tem cerca de 35 milhões de torcedores para tal.


Já os rivais dos dois gigantes, não. Mesmo campeões, eles têm que puxar na memória alguma tragédia alheia para, de alguma maneira, tentarem se sobrepor aos mais invejados.


E, como disse um gênio, se nem ao vencer eles são capazes de deixar Flamengo e Corinthians sossegados, importante, mesmo, é quem sempre é lembrado.


Em tempo: Flamengo e Corinthians empataram, quando poderiam ter vencido, ou seja, metade do país sorri, enquanto a outra lamenta.